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Termópilas: os 300 de Esparta e a batalha que virou lenda

Guerras480 a.C.8 min de leitura

Pintura do rei Leônidas sentado ao centro, com escudo e espada, cercado por guerreiros espartanos que se preparam para a batalha num desfiladeiro

Em 480 a.C., um pequeno exército grego liderado pelo rei espartano Leônidas segurou por três dias a gigantesca invasão persa de Xerxes num desfiladeiro estreito. Perderam a batalha, mas criaram uma das histórias de coragem mais famosas de todos os tempos.

Pintura do rei Leônidas sentado ao centro, com escudo e espada, cercado por guerreiros espartanos que se preparam para a batalha num desfiladeiro
Jacques-Louis David, Leônidas nas Termópilas, 1814. Museu do Louvre.

No início do século V a.C., o Império Persa era o maior que o mundo já tinha visto. Ia do Egito às fronteiras da Índia, e seus reis se apresentavam como “rei dos reis”. Do outro lado do mar Egeu, a Grécia era uma colcha de cidades independentes que viviam brigando entre si.

Em 490 a.C., o rei persa Dario I enviou uma expedição para punir Atenas, que tinha ajudado uma revolta contra ele. Os atenienses venceram na planície de Maratona. Dario morreu antes de conseguir se vingar. A tarefa ficou para o filho, Xerxes.

A maior invasão que a Grécia já tinha visto

Xerxes levou anos preparando a expedição. Mandou cavar um canal na península do monte Atos, para que sua frota não precisasse contornar o cabo onde uma tempestade já tinha destruído navios persas. E, no Helesponto, o estreito que separa a Ásia da Europa, mandou construir duas pontes feitas de centenas de barcos amarrados lado a lado.

Quando uma tempestade destruiu a primeira versão das pontes, conta Heródoto, Xerxes mandou chicotear o mar.

Gravura de Xerxes em sua carruagem, cercado por soldados, às margens do Helesponto
Xerxes atravessando o Helesponto, ilustração de The Story of the Greeks, de H. A. Guerber, 1896.

Em 480 a.C., o exército persa atravessou para a Europa. Heródoto fala em mais de 2,6 milhões de combatentes, um número impossível de alimentar e de mover. Os historiadores modernos estimam algo entre 100 mil e 300 mil soldados. Ainda assim, era de longe o maior exército que os gregos já tinham enfrentado.

O plano grego: fechar a porta

Pela primeira vez, rivais históricos como Atenas e Esparta se aliaram. A estratégia era bloquear o avanço persa em dois pontos ao mesmo tempo: no mar, a frota grega esperaria no cabo Artemísio; em terra, um exército fecharia a passagem das Termópilas.

O nome significa “Portas Quentes”, por causa das fontes de água quente da região. Ali, a estrada que levava ao sul da Grécia passava espremida entre montanhas íngremes e o mar. No ponto mais estreito, havia espaço para pouco mais que uma carroça. Numa passagem assim, o tamanho do exército persa deixava de fazer diferença.

Hoje a paisagem é outra: os sedimentos trazidos por um rio próximo fizeram a costa avançar, e o mar está a alguns quilômetros do antigo desfiladeiro.

Por que só 300 espartanos?

O comando do exército ficou com Leônidas, um dos dois reis de Esparta. Ele provavelmente já passava dos 50 anos. Como todo espartano, tinha sido criado desde criança para a guerra, num treinamento duríssimo chamado agogê.

Mas Esparta mandou apenas 300 cidadãos-soldados. Segundo Heródoto, os espartanos celebravam as Carneias, um festival religioso durante o qual não podiam guerrear, e ao mesmo tempo aconteciam os Jogos Olímpicos. A ideia era enviar uma vanguarda e mandar o resto do exército depois. Leônidas escolheu homens que já tinham filhos vivos, para que nenhuma família se extinguisse.

O resto do exército grego veio de outras cidades. Somados, eram cerca de 7 mil homens.

Quatro dias de espera

Xerxes chegou às Termópilas e esperou quatro dias. Achava que, diante do tamanho de seu exército, os gregos simplesmente iriam embora.

Um batedor persa voltou do desfiladeiro com uma informação estranha: os espartanos estavam fazendo exercícios e penteando os cabelos. Demarato, um rei espartano exilado que acompanhava Xerxes, explicou que aquele era o costume deles antes de arriscar a vida.

Segundo Plutarco, Xerxes mandou uma mensagem exigindo que os gregos entregassem as armas. Leônidas teria respondido com duas palavras que atravessaram os séculos:

Detalhe do rosto do rei Leônidas, de capacete com plumas brancas

“Venham pegá-las.”

LeônidasRei de EspartaSegundo Plutarco

Em grego, molon labe. Heródoto registra outra resposta famosa. Alguém comentou que os persas eram tantos que suas flechas escureciam o céu. O espartano Dienekes respondeu: “Ótimo. Então lutaremos à sombra.”

Dois dias de muralha

Quando os persas finalmente atacaram, encontraram uma parede de escudos. Os gregos lutavam em falange: fileiras compactas de hoplitas, com escudos de bronze sobrepostos e lanças longas. No espaço estreito, os persas não conseguiam usar a cavalaria nem cercar ninguém, e suas lanças eram mais curtas.

Primeiro vieram os medos e os císsios, que recuaram com grandes perdas. Depois, os Imortais, a guarda de elite de Xerxes, assim chamados porque, segundo a tradição, cada soldado morto era imediatamente substituído para manter o número em 10 mil. Também fracassaram. Os espartanos chegavam a fingir uma fuga para, de repente, virar e atacar os persas que avançavam desordenados.

Friso de tijolos esmaltados mostrando dois arqueiros persas em túnicas, segurando lanças
Friso dos arqueiros do palácio de Dario I em Susa, c. 510 a.C. Museu do Louvre. Os soldados da guarda real persa eram representados assim.

Heródoto conta que, assistindo ao combate, Xerxes saltou três vezes do trono, com medo pelo próprio exército. O segundo dia terminou igual ao primeiro.

A trilha da traição

Foi então que um homem da região, Efialtes, procurou Xerxes em busca de recompensa. Ele conhecia uma trilha pelas montanhas que contornava o desfiladeiro e saía atrás das linhas gregas.

Naquela noite, os Imortais subiram pela trilha. Mil soldados fócios guardavam a passagem, mas, surpreendidos de madrugada, recuaram para o alto de uma colina, e os persas simplesmente seguiram em frente. Em grego moderno, a palavra efialtis significa “pesadelo”.

O último dia

Ao amanhecer, Leônidas soube que seria cercado. Reuniu os aliados e dispensou a maior parte do exército. Ficaram os 300 espartanos, cerca de 700 soldados de Téspias, que se recusaram a partir, e 400 tebanos.

Por que ficar? Recuar seria contra a lei e a honra espartanas. Segundo Heródoto, havia também uma profecia do oráculo de Delfos: ou Esparta seria destruída, ou um de seus reis morreria. E alguém precisava segurar a passagem para que o resto do exército grego escapasse.

Ilustração em preto e branco de hoplitas gregos com escudos redondos lutando contra soldados persas numa encosta
John Steeple Davis, Cena da Batalha das Termópilas, 1900.

Desta vez, os gregos avançaram para a parte mais larga do desfiladeiro, para causar o máximo de baixas. Quando as lanças quebraram, lutaram com espadas. Leônidas morreu em combate, e os gregos lutaram quatro vezes para recuperar seu corpo.

Quando os Imortais chegaram pela retaguarda, os sobreviventes recuaram para uma pequena colina e resistiram com o que tinham, “com as mãos e com os dentes”, escreveu Heródoto, até serem derrubados por flechas. Os tebanos se renderam. Xerxes mandou cortar a cabeça de Leônidas e expor seu corpo.

MomentoO que aconteceu
Antes da batalhaXerxes espera quatro dias que os gregos se retirem
Dia 1Medos e císsios atacam e recuam; os Imortais também fracassam
Dia 2Novos ataques persas, com o mesmo resultado
NoiteEfialtes guia os Imortais pela trilha das montanhas
Dia 3, manhãLeônidas dispensa a maior parte dos aliados
Dia 3Última batalha; Leônidas morre e os gregos resistem até o fim

A data exata é incerta: agosto ou setembro de 480 a.C.

Perderam a batalha, venceram a guerra

Com a passagem aberta, os persas desceram pela Grécia e incendiaram Atenas, que tinha sido evacuada. Mas os dias ganhos nas Termópilas permitiram que a frota grega se reorganizasse. Poucas semanas depois, na baía de Salamina, os navios atenienses de Temístocles destruíram a frota persa.

Pintura dramática da batalha naval de Salamina, com navios, guerreiros e figuras divinas no céu
Wilhelm von Kaulbach, A Batalha de Salamina, 1868.

Xerxes voltou para a Ásia. No ano seguinte, em 479 a.C., os gregos venceram em terra, na batalha de Plateias, com os espartanos na linha de frente. A invasão persa tinha acabado. Um século e meio depois, Alexandre, o Grande faria o caminho inverso e derrubaria o Império Persa.

A lenda

Os espartanos enterraram seus mortos no próprio campo de batalha. Sobre o túmulo, uma inscrição atribuída ao poeta Simônides virou um dos epitáfios mais famosos da história.

Detalhe da pintura mostrando um soldado gravando com a espada uma inscrição na rocha
Detalhe de Leônidas nas Termópilas, de Jacques-Louis David: um soldado grava o epitáfio na rocha.

“Estrangeiro, vá dizer aos espartanos que aqui jazemos, obedientes às suas leis.”

SimônidesEpitáfio dos espartanosSegundo Heródoto

Hoje, no local da batalha, há uma estátua de Leônidas com duas palavras gravadas: molon labe. As Termópilas viraram símbolo de resistência contra forças muito maiores, e inspiraram o filme 300, de 2006. Ele é empolgante, mas muito livre: os espartanos lutavam de armadura, não sem camisa, e nunca estiveram sozinhos. Ao lado deles estavam milhares de gregos de outras cidades, incluindo os 700 téspios que escolheram ficar até o fim e que a lenda quase esqueceu.

Não eram só 300: os gregos nas Termópilas

Árcades (Tegeia, Mantineia, Orcômeno e outros)2.120
Fócios1.000
Téspios700
Coríntios400
Tebanos400
Espartanos300
Fliunte e Micenas280

Números de Heródoto (livro VII). Os lócrios de Opunte enviaram “todos os homens que tinham”, em número desconhecido, e os espartanos levaram também hilotas, seus servos. Estimativas modernas falam em cerca de 7 mil gregos no total.

Fontes

  • Heródoto, Histórias, livro VII (séc. V a.C.)
  • Plutarco, Apotegmas dos lacônios, em Moralia (séc. II d.C.)
  • Ernle Bradford, Thermopylae: The Battle for the West (1980)
  • Tom Holland, Persian Fire: The First World Empire and the Battle for the West (2005)
  • Paul Cartledge, Thermopylae: The Battle That Changed the World (2006)

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