Termópilas: os 300 de Esparta e a batalha que virou lenda

Em 480 a.C., um pequeno exército grego liderado pelo rei espartano Leônidas segurou por três dias a gigantesca invasão persa de Xerxes num desfiladeiro estreito. Perderam a batalha, mas criaram uma das histórias de coragem mais famosas de todos os tempos.

No início do século V a.C., o Império Persa era o maior que o mundo já tinha visto. Ia do Egito às fronteiras da Índia, e seus reis se apresentavam como “rei dos reis”. Do outro lado do mar Egeu, a Grécia era uma colcha de cidades independentes que viviam brigando entre si.
Em 490 a.C., o rei persa Dario I enviou uma expedição para punir Atenas, que tinha ajudado uma revolta contra ele. Os atenienses venceram na planície de Maratona. Dario morreu antes de conseguir se vingar. A tarefa ficou para o filho, Xerxes.
A maior invasão que a Grécia já tinha visto
Xerxes levou anos preparando a expedição. Mandou cavar um canal na península do monte Atos, para que sua frota não precisasse contornar o cabo onde uma tempestade já tinha destruído navios persas. E, no Helesponto, o estreito que separa a Ásia da Europa, mandou construir duas pontes feitas de centenas de barcos amarrados lado a lado.
Quando uma tempestade destruiu a primeira versão das pontes, conta Heródoto, Xerxes mandou chicotear o mar.

Em 480 a.C., o exército persa atravessou para a Europa. Heródoto fala em mais de 2,6 milhões de combatentes, um número impossível de alimentar e de mover. Os historiadores modernos estimam algo entre 100 mil e 300 mil soldados. Ainda assim, era de longe o maior exército que os gregos já tinham enfrentado.
O plano grego: fechar a porta
Pela primeira vez, rivais históricos como Atenas e Esparta se aliaram. A estratégia era bloquear o avanço persa em dois pontos ao mesmo tempo: no mar, a frota grega esperaria no cabo Artemísio; em terra, um exército fecharia a passagem das Termópilas.
O nome significa “Portas Quentes”, por causa das fontes de água quente da região. Ali, a estrada que levava ao sul da Grécia passava espremida entre montanhas íngremes e o mar. No ponto mais estreito, havia espaço para pouco mais que uma carroça. Numa passagem assim, o tamanho do exército persa deixava de fazer diferença.
Hoje a paisagem é outra: os sedimentos trazidos por um rio próximo fizeram a costa avançar, e o mar está a alguns quilômetros do antigo desfiladeiro.
Por que só 300 espartanos?
O comando do exército ficou com Leônidas, um dos dois reis de Esparta. Ele provavelmente já passava dos 50 anos. Como todo espartano, tinha sido criado desde criança para a guerra, num treinamento duríssimo chamado agogê.
Mas Esparta mandou apenas 300 cidadãos-soldados. Segundo Heródoto, os espartanos celebravam as Carneias, um festival religioso durante o qual não podiam guerrear, e ao mesmo tempo aconteciam os Jogos Olímpicos. A ideia era enviar uma vanguarda e mandar o resto do exército depois. Leônidas escolheu homens que já tinham filhos vivos, para que nenhuma família se extinguisse.
O resto do exército grego veio de outras cidades. Somados, eram cerca de 7 mil homens.
Quatro dias de espera
Xerxes chegou às Termópilas e esperou quatro dias. Achava que, diante do tamanho de seu exército, os gregos simplesmente iriam embora.
Um batedor persa voltou do desfiladeiro com uma informação estranha: os espartanos estavam fazendo exercícios e penteando os cabelos. Demarato, um rei espartano exilado que acompanhava Xerxes, explicou que aquele era o costume deles antes de arriscar a vida.
Segundo Plutarco, Xerxes mandou uma mensagem exigindo que os gregos entregassem as armas. Leônidas teria respondido com duas palavras que atravessaram os séculos:

“Venham pegá-las.”
Em grego, molon labe. Heródoto registra outra resposta famosa. Alguém comentou que os persas eram tantos que suas flechas escureciam o céu. O espartano Dienekes respondeu: “Ótimo. Então lutaremos à sombra.”
Dois dias de muralha
Quando os persas finalmente atacaram, encontraram uma parede de escudos. Os gregos lutavam em falange: fileiras compactas de hoplitas, com escudos de bronze sobrepostos e lanças longas. No espaço estreito, os persas não conseguiam usar a cavalaria nem cercar ninguém, e suas lanças eram mais curtas.
Primeiro vieram os medos e os císsios, que recuaram com grandes perdas. Depois, os Imortais, a guarda de elite de Xerxes, assim chamados porque, segundo a tradição, cada soldado morto era imediatamente substituído para manter o número em 10 mil. Também fracassaram. Os espartanos chegavam a fingir uma fuga para, de repente, virar e atacar os persas que avançavam desordenados.

Heródoto conta que, assistindo ao combate, Xerxes saltou três vezes do trono, com medo pelo próprio exército. O segundo dia terminou igual ao primeiro.
A trilha da traição
Foi então que um homem da região, Efialtes, procurou Xerxes em busca de recompensa. Ele conhecia uma trilha pelas montanhas que contornava o desfiladeiro e saía atrás das linhas gregas.
Naquela noite, os Imortais subiram pela trilha. Mil soldados fócios guardavam a passagem, mas, surpreendidos de madrugada, recuaram para o alto de uma colina, e os persas simplesmente seguiram em frente. Em grego moderno, a palavra efialtis significa “pesadelo”.
O último dia
Ao amanhecer, Leônidas soube que seria cercado. Reuniu os aliados e dispensou a maior parte do exército. Ficaram os 300 espartanos, cerca de 700 soldados de Téspias, que se recusaram a partir, e 400 tebanos.
Por que ficar? Recuar seria contra a lei e a honra espartanas. Segundo Heródoto, havia também uma profecia do oráculo de Delfos: ou Esparta seria destruída, ou um de seus reis morreria. E alguém precisava segurar a passagem para que o resto do exército grego escapasse.

Desta vez, os gregos avançaram para a parte mais larga do desfiladeiro, para causar o máximo de baixas. Quando as lanças quebraram, lutaram com espadas. Leônidas morreu em combate, e os gregos lutaram quatro vezes para recuperar seu corpo.
Quando os Imortais chegaram pela retaguarda, os sobreviventes recuaram para uma pequena colina e resistiram com o que tinham, “com as mãos e com os dentes”, escreveu Heródoto, até serem derrubados por flechas. Os tebanos se renderam. Xerxes mandou cortar a cabeça de Leônidas e expor seu corpo.
| Momento | O que aconteceu |
|---|---|
| Antes da batalha | Xerxes espera quatro dias que os gregos se retirem |
| Dia 1 | Medos e císsios atacam e recuam; os Imortais também fracassam |
| Dia 2 | Novos ataques persas, com o mesmo resultado |
| Noite | Efialtes guia os Imortais pela trilha das montanhas |
| Dia 3, manhã | Leônidas dispensa a maior parte dos aliados |
| Dia 3 | Última batalha; Leônidas morre e os gregos resistem até o fim |
A data exata é incerta: agosto ou setembro de 480 a.C.
Perderam a batalha, venceram a guerra
Com a passagem aberta, os persas desceram pela Grécia e incendiaram Atenas, que tinha sido evacuada. Mas os dias ganhos nas Termópilas permitiram que a frota grega se reorganizasse. Poucas semanas depois, na baía de Salamina, os navios atenienses de Temístocles destruíram a frota persa.

Xerxes voltou para a Ásia. No ano seguinte, em 479 a.C., os gregos venceram em terra, na batalha de Plateias, com os espartanos na linha de frente. A invasão persa tinha acabado. Um século e meio depois, Alexandre, o Grande faria o caminho inverso e derrubaria o Império Persa.
A lenda
Os espartanos enterraram seus mortos no próprio campo de batalha. Sobre o túmulo, uma inscrição atribuída ao poeta Simônides virou um dos epitáfios mais famosos da história.

“Estrangeiro, vá dizer aos espartanos que aqui jazemos, obedientes às suas leis.”
Hoje, no local da batalha, há uma estátua de Leônidas com duas palavras gravadas: molon labe. As Termópilas viraram símbolo de resistência contra forças muito maiores, e inspiraram o filme 300, de 2006. Ele é empolgante, mas muito livre: os espartanos lutavam de armadura, não sem camisa, e nunca estiveram sozinhos. Ao lado deles estavam milhares de gregos de outras cidades, incluindo os 700 téspios que escolheram ficar até o fim e que a lenda quase esqueceu.
Não eram só 300: os gregos nas Termópilas
Números de Heródoto (livro VII). Os lócrios de Opunte enviaram “todos os homens que tinham”, em número desconhecido, e os espartanos levaram também hilotas, seus servos. Estimativas modernas falam em cerca de 7 mil gregos no total.
Fontes
- Heródoto, Histórias, livro VII (séc. V a.C.)
- Plutarco, Apotegmas dos lacônios, em Moralia (séc. II d.C.)
- Ernle Bradford, Thermopylae: The Battle for the West (1980)
- Tom Holland, Persian Fire: The First World Empire and the Battle for the West (2005)
- Paul Cartledge, Thermopylae: The Battle That Changed the World (2006)



