Alexandre, o Grande: o rei que conquistou o mundo antes dos 33

Em pouco mais de dez anos, um jovem rei da Macedônia derrotou o maior império do seu tempo e levou seu exército do Mediterrâneo até a Índia. Esta é a história de Alexandre, o Grande: o aluno de Aristóteles que nunca perdeu uma batalha e morreu aos 32 anos.

Alexandre nasceu em julho de 356 a.C., em Pela, a capital da Macedônia, um reino no norte da Grécia que os atenienses consideravam meio bárbaro. Era filho do rei Filipe II, um militar brilhante que transformou a Macedônia na maior potência da Grécia, e de Olímpia, uma princesa do Épiro conhecida pelo temperamento forte e pela devoção religiosa.
Filipe passou a vida em guerra e criou o exército que o filho usaria para conquistar o mundo: a falange macedônica, com lanças de mais de cinco metros, e uma cavalaria de elite, os Companheiros.
O cavalo que ninguém conseguia montar
Plutarco conta que, ainda menino, Alexandre viu os cavalariços do pai desistirem de um cavalo enorme e arisco, que ninguém conseguia montar. Ele percebeu o que os adultos não tinham visto: o animal se assustava com a própria sombra. Virou o cavalo de frente para o sol, acalmou-o e montou.
O cavalo se chamava Bucéfalo e acompanharia Alexandre por quase vinte anos, até a Índia.
“Meu filho, procure um reino à sua altura. A Macedônia é pequena demais para você.”
O aluno de Aristóteles
Em 343 a.C., quando Alexandre tinha 13 anos, Filipe contratou o maior pensador da época para educá-lo: Aristóteles. Durante cerca de três anos, em Mieza, o filósofo ensinou ao príncipe política, ética, medicina, ciências naturais e literatura.
Alexandre se apaixonou pela Ilíada, de Homero, e se via como um novo Aquiles. Segundo Plutarco, levou nas campanhas uma cópia anotada por Aristóteles e dormia com ela debaixo do travesseiro, ao lado de uma adaga.

Aos 18 anos, Alexandre já comandava tropas. Em 338 a.C., na batalha de Queroneia, liderou a cavalaria que derrotou o Batalhão Sagrado de Tebas, a tropa de elite mais respeitada da Grécia. Depois dessa vitória, Filipe passou a controlar praticamente todas as cidades gregas.
Rei aos 20 anos
Em 336 a.C., Filipe foi assassinado por um de seus guarda-costas durante o casamento da própria filha, em Egas. Alexandre tinha 20 anos e precisou agir rápido: eliminou rivais ao trono e marchou contra as cidades gregas que viram na morte do rei uma chance de se rebelar.
A mensagem veio em 335 a.C., em Tebas. A cidade foi arrasada e seus habitantes, vendidos como escravos. Segundo a tradição, Alexandre poupou apenas os templos e a casa do poeta Píndaro. O resto da Grécia entendeu o recado.
Foi nessa época que, em Corinto, ele teria conhecido o filósofo Diógenes, que vivia na rua e desprezava qualquer riqueza. Alexandre perguntou se podia fazer algo por ele. Diógenes, deitado ao sol, respondeu: “Sim. Saia da frente do meu sol.” Plutarco conta que Alexandre comentou depois: “Se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes.”
A invasão da Pérsia
O Império Persa era o maior do mundo: ia da atual Turquia ao Egito e às fronteiras da Índia. Filipe planejava atacá-lo; Alexandre executou o plano.
Na primavera de 334 a.C., atravessou o Helesponto, o estreito que separa a Europa da Ásia, com cerca de 32 mil soldados de infantaria e 5 mil cavaleiros. Ao chegar, visitou Troia e prestou homenagem ao túmulo de Aquiles.
Semanas depois, venceu os sátrapas persas na batalha do rio Granico. Lutando na linha de frente, como sempre, quase morreu: um nobre persa já erguia a arma para golpeá-lo quando Clito, um de seus oficiais, cortou o braço do inimigo a tempo.
O nó górdio
No inverno seguinte, na cidade de Górdio, mostraram a Alexandre um nó impossível de desatar, preso à carroça de um antigo rei. Dizia a lenda que quem o desfizesse governaria a Ásia. Segundo a versão mais famosa, Alexandre puxou a espada e cortou o nó ao meio. Outra versão diz que ele apenas retirou o pino que prendia as cordas. De um jeito ou de outro, “cortar o nó górdio” virou sinônimo de resolver um problema difícil com uma solução ousada.

Isso: frente a frente com o rei dos reis
Em novembro de 333 a.C., Alexandre enfrentou pela primeira vez o próprio rei persa, Dario III, na batalha de Isso, no sul da atual Turquia. Em desvantagem numérica, lançou sua cavalaria diretamente contra a posição de Dario. O rei fugiu do campo de batalha e deixou para trás o acampamento, o tesouro e a própria família.
Alexandre tratou a mãe, a esposa e as filhas de Dario com respeito, o que os autores antigos registraram com espanto. A cena virou tema de pintores séculos depois.

Tiro, Egito e Alexandria
Em vez de perseguir Dario, Alexandre desceu pela costa do Mediterrâneo para tirar dos persas seus portos e sua frota. A cidade de Tiro, numa ilha fortificada, resistiu por sete meses. Para alcançá-la, os macedônios construíram um aterro de quase um quilômetro mar adentro. Quando a cidade caiu, em 332 a.C., a punição foi brutal.
O Egito, ao contrário, se rendeu sem lutar e recebeu Alexandre como libertador do domínio persa. Ele atravessou o deserto até o oráculo de Amon, no oásis de Siuá, onde os sacerdotes o saudaram como filho do deus. No litoral, em 331 a.C., fundou a cidade que levaria seu nome: Alexandria, que se tornaria a maior cidade do mundo grego e sede da famosa Biblioteca.
Gaugamela: a batalha que derrubou um império
Dario reuniu um novo exército, muito maior que o macedônio, e escolheu um terreno plano, perfeito para seus carros de guerra com foices nas rodas. O encontro aconteceu em 1º de outubro de 331 a.C., em Gaugamela, no norte do atual Iraque.
Alexandre avançou em diagonal, obrigando os persas a esticar a linha para acompanhá-lo. Quando se abriu um buraco no centro persa, ele mesmo liderou a cavalaria por ali, direto na direção de Dario. Pela segunda vez, o rei fugiu. O Império Persa, na prática, acabou naquele dia.

As capitais persas caíram uma a uma: Babilônia, Susa e Persépolis, onde os macedônios encontraram tesouros imensos. Em 330 a.C., o palácio de Persépolis foi incendiado. Até hoje se discute se foi uma vingança planejada pelas guerras persas contra a Grécia ou o resultado de uma noite de bebedeira. Meses depois, Dario foi assassinado por um de seus próprios governadores, Besso. Alexandre deu ao rei um funeral real e mandou executar o traidor.
O rei que queria ser persa
Senhor do maior império já visto, Alexandre começou a mudar. Adotou roupas e cerimônias da corte persa, incorporou nobres persas ao governo e tentou introduzir a proskynesis, a prostração diante do rei. Para os macedônios, que viam seu rei como um igual entre guerreiros, aquilo era inaceitável.
A tensão cobrou seu preço. Em 330 a.C., o general Filotas foi executado, acusado de conspiração, e seu pai, Parmênio, o veterano mais respeitado do exército, foi assassinado por ordem de Alexandre. Em 328 a.C., em Maracanda, a atual Samarcanda, numa discussão regada a vinho, Alexandre matou com uma lança o mesmo Clito que lhe salvara a vida no Granico. Passou três dias trancado, sem comer.
As campanhas na Báctria e na Sogdiana, regiões dos atuais Afeganistão e Uzbequistão, foram as mais duras: nada de grandes batalhas, mas anos de guerrilha nas montanhas. Em 327 a.C., Alexandre casou-se com Roxana, filha de um nobre local.
Índia: o fim da linha
Em 326 a.C., Alexandre entrou no vale do rio Indo, no atual Paquistão. No rio Hidaspes, enfrentou o rei Poro, que tinha um exército com cerca de 200 elefantes de guerra, segundo Arriano. Numa noite de tempestade, Alexandre atravessou o rio alguns quilômetros acima, pegou Poro de surpresa e venceu uma das batalhas mais difíceis de sua carreira.
Quando Poro, ferido, foi levado até ele, Alexandre perguntou como queria ser tratado. “Como um rei”, respondeu Poro. Alexandre o manteve no trono e ainda ampliou seu território. Bucéfalo morreu pouco depois da batalha, e Alexandre fundou em sua homenagem a cidade de Bucéfala.

Alexandre queria seguir até o “fim do mundo”, que os gregos imaginavam estar logo adiante. Mas, às margens do rio Hífase, o exército se recusou a avançar. Eram oito anos longe de casa e milhares de quilômetros percorridos. Depois de três dias trancado em sua tenda, Alexandre cedeu e deu meia-volta.
O caminho de volta foi trágico. Num ataque a uma cidade às margens do Indo, uma flecha atravessou seu peito e ele quase morreu. Depois, decidiu cruzar o deserto da Gedrósia, no atual sul do Paquistão e do Irã, onde milhares morreram de sede e calor.
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 356 a.C. | Nasce em Pela, na Macedônia |
| 343 a.C. | Começa a estudar com Aristóteles |
| 338 a.C. | Comanda a cavalaria na batalha de Queroneia |
| 336 a.C. | Filipe II é assassinado; Alexandre torna-se rei |
| 334 a.C. | Atravessa para a Ásia e vence no rio Granico |
| 333 a.C. | Corta o nó górdio e vence Dario III em Isso |
| 332 a.C. | Toma Tiro após sete meses de cerco e entra no Egito |
| 331 a.C. | Funda Alexandria e vence em Gaugamela |
| 330 a.C. | Incêndio de Persépolis; morte de Dario III |
| 327 a.C. | Casa-se com Roxana |
| 326 a.C. | Vence Poro no Hidaspes; o exército se recusa a seguir |
| 323 a.C. | Morre na Babilônia, aos 32 anos |
A morte na Babilônia
De volta à Babilônia, Alexandre planejava novas campanhas, agora rumo à Arábia. Antes, em 324 a.C., promoveu em Susa um casamento coletivo: ele e cerca de 80 oficiais macedônios, segundo Arriano, se casaram com mulheres da nobreza persa. No mesmo ano, perdeu seu amigo mais próximo, Heféstion, e mergulhou num luto profundo.
No início de junho de 323 a.C., depois de um banquete, Alexandre teve febre. Piorou dia após dia até perder a voz. Os soldados fizeram fila para passar diante de sua cama, e ele os cumprimentou com os olhos. Morreu em 10 ou 11 de junho, com 32 anos. A causa ainda é debatida: malária, febre tifoide, os efeitos de anos de ferimentos e bebida ou, segundo boatos da época, envenenamento.

“Ao mais forte.”

O que ficou
O império não sobreviveu ao seu criador. Os generais de Alexandre, os chamados diádocos, passaram décadas em guerra entre si e dividiram as conquistas. Um deles, Ptolomeu, ficou com o Egito e fundou a dinastia que governaria o país por quase três séculos, até sua última rainha, Cleópatra.
O legado cultural, porém, foi enorme. A língua e a cultura gregas se espalharam do Mediterrâneo até a Ásia Central, dando início ao chamado período helenístico. Plutarco atribui a Alexandre a fundação de mais de 70 cidades; os historiadores modernos confirmam cerca de duas dezenas, muitas delas chamadas Alexandria.
Segundo a tradição, Alexandre nunca perdeu uma batalha que comandou pessoalmente. Virou modelo para generais de todas as épocas. O historiador Suetônio conta que Júlio César chorou diante de uma estátua dele, porque, com a mesma idade, Alexandre já havia conquistado o mundo e ele ainda não tinha feito nada de memorável. Séculos depois, Napoleão o incluía na sua lista dos maiores comandantes da história, ao lado de Aníbal e César.
Morreu sem ter completado 33 anos. Poucos personagens da História fizeram tanto em tão pouco tempo.
Quantos anos Alexandre tinha
Alexandre nasceu em julho de 356 a.C. Idades aproximadas em cada marco.
Fontes
- Arriano, Anábase de Alexandre (séc. II d.C.)
- Plutarco, Vida de Alexandre (séc. II d.C.)
- Quinto Cúrcio Rufo, Histórias de Alexandre, o Grande (séc. I d.C.)
- Robin Lane Fox, Alexander the Great (1973)
- Peter Green, Alexander of Macedon, 356–323 B.C. (1991)
- Paul Cartledge, Alexander the Great: The Hunt for a New Past (2004)



